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O dia calmo e tranqüilo no Colégio Winnicott, em São Paulo, virou um tumulto quando a diretora, Elizabeth Polity, mãe de Acássio, Andréa, Lucila e Suzane, foi informada que um aluno havia subido no telhado. Beth, como é chamada, mobilizou alguns monitores e foi ela mesma, junto com eles, orientar a criança para que descesse de lá. Depois de gastar muita saliva com argumentações sem convencer o menino a descer, ela não viu outra alternativa a não ser ligar para os pais e convocá-los a ajudar. Novo fracasso: “Ele não nos respeita”, admitiu o pai. “Vocês que têm de ensiná-lo a obedecer, ele está aqui e é da escola essa responsabilidade”, completou. Resultado: Beth teve de chamar o corpo de bombeiros para trazer o menino de volta ao chão. “Como vamos fazer valer uma autoridade aqui, se em casa a criança não está acostumada alidar com isso?”, diz Beth.
Pode parecer uma situação extrema de conflito entre os professores e a família. Infelizmente não é, não. Basta prestar atenção em uma reunião de rotina entre pais e mestres de uma escola de educação infantil pra ver os muitos exemplos. Denise, mãe de Laura, entrega os pontos: “Não há jeito de fazer minha filha comer em casa, por isso decidi deixá-la em período integral, aqui tenho certeza que vocês vão fazer com que ela coma direito”. Da mesma turma de alunos de 4 anos, Patrícia, mãe da Bianca, pede socorro: “Não sei mais o que fazer: ela já fica sem fralda até pra dormir à noite, mas exige que eu coloque uma quando quer fazer cocô. Vocês podem fazer alguma coisa?”. Do outro lado, as professoras ficam sem saber de que forma reagir, como conta a pedagoga Marise Rodrigues, mãe de Murilo: “Tinha um aluno que não suportava cortar as unhas. Só fazia isso na marra e depois passava semanas sem segurar direito os objetos. Os pais, inconformados, queriam que a escola se encarregasse de aparar as unhas do menino. Mas a gente via que não era uma simples birra, ele visivelmente tinha um problema mais profundo, que cabia à família resolver. Não podíamos nos encarregar dessa tarefa”, conta ela.
Exemplos como esses refletem uma tendência detectada por muitos educadores e especialistas que trabalham com desenvolvimento infantil: a terceirização da educação dos filhos. Não é algo consciente, não estamos renegando o papel de pais, mas em muitos momentos caímos na tentação de passar a bola pra frente, exigir que outros resolvam um pouco o nosso lado na criação dos filhos.
Tudo bem, sabemos que cada vez mais precisamos de colaboradores que ajudem nessa tarefa. Há 50 anos, a jornada de oito horas de trabalho de um pai era suficiente para sustentar uma família numerosa. Hoje, o casal passa o dia fora e mal dá conta de bancar a criação de dois, três filhos. Por isso é normal sair atrás de colaboração. E é importante contar com isso. Ninguém cria filho sozinho. Mas não dá pra perder de vista os limites do papel de cada um. E é aí que o bicho pega.
Queda de braço
E o bicho tem pegado bastante na relação entre família e escola. Cada vez mais cedo os pais buscam a ajuda de educadores profissionais. Segundo o Ministério da Educação, há cerca de 7,2 milhões de crianças matriculadas em creches e pré-escolas no Brasil – número 42% maior do que há seis anos. E a escola tem tido cada vez mais dificuldade em satisfazer os pais. O conflito de tarefas – quem ensina e faz o que – acontece o tempo todo. A questão da disciplina é a queda de braço mais recorrente. Os pais esperam que os professores coloquem limites nos filhos, e vice-versa. “Os pais não podem esperar que a escola, sozinha, encontre a solução.
No mínimo, tem de haver uma parceria. Algo que facilita e deve ser feito é se informar sobre as regras de disciplina aplicadas em sala de aula e repetir em casa, para que as duas partes falem a mesma linguagem”, observa o pediatra Roberto Bittar, pai de Beatriz, Júlia e Daniel.
Para colocar ordem na casa, é bom saber que família e escola cumprem papéis complementares na educação da criança. Definir o que é de responsabilidade de cada um e seguir o script é básico. A maioria dos educadores afirma que as questões de ordem moral, ética e religiosa devem ser ensinadas em casa. “Não dá pra escola se encarregar de formar um indivíduo honesto”, afirma a psicóloga Rosely Sayão, mãe de Camila e Fábio. Já a responsabilidade de ensinar a criança a viver em sociedade é dever da escola. Afinal, é lá que ela vai conviver com outras crianças e compreender melhor a existência do “outro”. “Além de conhecimento, a escola tem de transmitir regras de convivência e orientar o aluno a se relacionar bem com os colegas, respeitar as diferenças e não invadir o espaço alheio”, completa Rosely.
Também não é possível cobrar apenas da escola a responsabilidade pelo desenvolvimento intelectual de nossos filhos. O ambiente familiar é muito importante. “Parece que os pais acham que a criança é um saco vazio que mandam pra gente preencher”, diz a educadora Elizabeth Polity. “Já ouvi muitos dizerem ‘ela está aqui e vocês têm de dar conta dela’, quando, na verdade, o discurso deve ser ‘o que nós, juntos, podemos fazer?’”, acredita. O hábito da leitura é um exemplo concreto. Ele deve começar em casa, de preferência quando a criança ainda é pequena. Mas, às vezes, os pais só assistem à televisão e depois cobram da escola que o filho aprenda a gostar de ler e tenha facilidade na alfabetização.
Com a babá, com quem mantém uma relação de hierarquia bem mais definida, a questão não é diferente. Ela pode até representar a autoridade materna e paterna na ausência do casal, mas jamais assumir o seu papel. Uma situação comum em que isso ocorre é quando a profissional constrói um vínculo forte com os pais da criança, a ponto de se transformar em conselheira. “Quando isso acontece, parece até que a opinião da babá é mais importante que a deles”, diz a psicóloga Carla Maia, mãe de Pedro. “Isto é péssimo, pois eles precisam deixar claro que existe um vínculo empregatício, profissional, para continuar sendo o ponto de referência da criança.”
É fundamental que os pais tenham uma relação forte com o filho. A velha questão do tempo que se passa junto, da qualidade deste tempo... O vínculo entre pais e filhos tem uma influência muito grande na estruturação da personalidade da criança. “A ausência paterna e materna é vivida por ela como uma sensação de abandono, o que pode afetar a formação da auto-estima”, explica o psiquiatra Carlos Byington, pai de Bianca, Olívia, Rita e Elisa. “E a criança precisa construir uma boa auto-estima para, no futuro, ter ânimo de busca, luta e enfrentamento para batalhar pela vida.”
Claro que na hora de contratar uma babá a gente quer uma que encha nossos filhos de atenção, que seja afetuosa. Mas não dá pra esquecer: carinho de babá é diferente de carinho de pai e de mãe. A criança precisa sentir de verdade, na pele, o quanto ela é bem-vinda e amada pelos pais para, em conseqüência, construir a segurança e a confiança interna que carregará para o resto da vida. Esse trabalho ninguém pode fazer pela gente. E independentemente do amor que sentimos, estamos falando de trabalho mesmo.
O que ele tem doutor?
Hiperatividade, transtorno do déficit de atenção (TDAH) e depressão infantil são alguns dos distúrbios da moda. É um tal de meu “filho é hiperativo”, “meu filho tem TDAH” que a gente fica até na dúvida do que é mesmo doença ou o que é angústia dos pais diante de uma dificuldade de colocar em prática medidas educativas na vida da criança.
Ninguém aqui está negando que estes problemas existem de fato e nossas crianças não estão livres deles. Mas os próprios especialistas que tratam disso acreditam que há um exagero, especialmente em relação à hiperatividade. “Nem sempre uma criança muito agitada é hiperativa. Tem havido diagnósticos equivocados e, por isso, a criança acaba sendo tratada de maneira inadequada”, alerta o neurologista infantil Saul Cypel, pai de Marcela, Irina, Eleonora e Bruna. Só que, às vezes, parece que os pais, inconscientemente, preferem acreditar que o filho seja portador de uma “síndrome” já reconhecida e, portanto, que pode ser controlada pela medicina ou pelo apoio de um psicólogo, a reconhecer que está havendo uma falha no papel que deveriam desempenhar. Coisa que, para ser resolvida, vai precisar de um pouco mais de esforço.
“Recebo muitos pais que se queixam, por exemplo, de que a criança é muito agressiva e deve haver algo de errado com ela, quando, na verdade, o problema é com eles, que não têm paciência para ensiná-la a se controlar”, afirma o doutor Bittar. “Essa falta de paciência se observa em várias situações, como na hora de ensinar o filho a criar um hábito de sono saudável, comer direito e até a tomar banho”, conta ele. Diariamente, em seu consultório, chovem queixas de pais angustiados com as dificuldades comportamentais dos filhos. Questões que, segundo Bittar, poderiam ser resolvidas se os pais modificassem um pouco o modo como se relacionam com os filhos. Óbvio que tem situações em que a criança está sofrendo e aí a ajuda de um psicólogo é bem-vinda. Mas até pra distinguir esses casos, é preciso investir numa ligação mais próxima.
Metamorfose ambulante
Parece difícil e é mesmo. A educação é um processo trabalhoso e lento. É normal criança fazer pirraça, chorar, encher o saco e tirar a gente do sério. Ela está crescendo, se desenvolvendo e precisa passar por tudo isso. Não existe solução mágica. O tempo hoje é escasso, mas olhar pra trás e acreditar que antes era tudo melhor é uma ilusão. Os pais podiam até passar mais horas com os filhos, mas também muitas vezes eram mais autoritários, duros, impositivos e, por isso, mais distantes. Não dá para generalizar. Os educadores explicam que a dinâmica familiar está passando por um processo de transformação. Os pais não desejam copiar a geração anterior, mas ainda não encontraram um modelo confortável que se ajuste às suas dificuldades de hoje. Vamos sofrer menos se aceitarmos o fato de que não existe perfeição e que pequenos deslizes acontecem sempre, com todo mundo.
Melhor do que sair em busca da escola, da babá ou de algum profissional perfeito pra cuidar da criança, é construir com ela uma relação verdadeira e prazerosa. Ninguém substitui os pais. O amor materno e paterno é essencial para a formação da identidade de uma pessoa, assim como o alimento é para o corpo. E esse amor só é percebido por ela por meio da presença constante e consistente dos pais no dia-a-dia. Carlos Byington explica bem como isso acontece. “O amor é a proteína de formação do ego. Se a criança não toma leite, vai apresentar vários defeitos de crescimento. Quando não recebe amor, apresenta essas deformações também, porque ele é a proteína da vida psíquica.” A gente entende que amar o filho é saber dizer não, é dar limites, é "perder tempo" com ele, acompanhando seu crescimento. E acima de tudo, aproveitar essa pessoinha que você tem em casa. Curtir com ela, brincar junto. Fala sério: gastar quinze minutos do seu dia para ler uma história na cama não vai atrapalhar em absolutamente nada a sua agenda e pra seu filho vai representar muito. Elogiar um desenho dele ou um novo passo de dança que aprendeu pode até parecer um gesto pouco significativo, mas pra ele vai fazer uma diferença e tanto. E pra você, lá no fundo, também.
CONSULTORIA
Carla Maia, psicóloga e fundadora do Playgym, espaço no Rio de Janeiro voltado ao desenvolvimento emocional infantil. Tel. (21) 2537-9541
Carlos Byington, médico psiquiatra, analista junguiano e membro fundador da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. Tel. (11) 3845-3663. www.carlosbyington.com.br
Elizabeth Polity, psicopedagoga, diretora e proprietária do Colégio Winnicott. Tel. (11) 3884-5235
Erane Paladino, psicóloga clínica e professora do Instituto Sedes Sapientiae. Tel. (11) 3866-2730
Dr. Roberto Bittar, pediatra do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Tel. (11) 5531-2011
Rosely Sayão, psicóloga, consultora em educação e colunista do jornal Folha de S.Paulo, roselys@uol.com.br
Dr. Saul Cypel, neurologista infantil e diretor do Inst. de Neurodesenvolvimento Integrado (Indi).
Tel. (11) 3812-6838
RITUAL EM FAMÍLIA
As mesas de jantar estão entrando em extinção. Como assim? Isso mesmo. De acordo com uma pesquisa recente feita na Inglaterra, ao longo dos últimos cinco anos, a venda desses móveis caiu 8% por lá. Um quarto da população britânica já vive em casas que não têm mesa de jantar. Com isso, desaparecem também as refeições em família, que antes eram um dos únicos momentos do dia – senão o único – em que todos da casa se reuniam. No Brasil, por exemplo, 30% a 40% das famílias já não jantam juntas de cinco a sete vezes por semana. São tantos os atrativos fora da mesa – computador, televisão, videogame... – que a família comendo reunida já é cena rara. Em boa parte dos lares, as crianças maiorzinhas e os pais se alimentam quando e onde querem e alguém se encarrega de dar comida para os menores. Mais do que fazer mal à saúde física, este comportamento afeta o vínculo familiar. Afinal, o ritual de se reunir à mesa na hora das refeições é uma oportunidade única para que troquem experiências e solidifiquem a identidade entre pais e filhos. Um estudo feito pela Universidade de Harvard pretendia detectar qual era a melhor atividade para promover o desenvolvimento da linguagem. Ganharam as refeições em família, que, segundo a pesquisa, é mais importante que brincar ou contar histórias antes de dormir. |
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