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“Quem é o seu namoradinho?” Não se assuste se sua filha de 3 e poucos anos responder sem pensar duas vezes: “é o papai!” Essa resposta, óbvia para ela e talvez um pouco desconcertante para você, aparece mesmo nessa fase, que os psicanalistas chamam de edipiana e que vai mais ou menos até os 6 anos. É, sua garotinha está crescendo. Para se tornar uma moça lá na frente, ela precisa, sim, continuar se identificando com a mãe, mas também interessar-se pelo sexo oposto, representado pelo pai. Certo, Édipo foi o tal que, sem saber, matou o pai e casou-se com a própria mãe, desrespeitando a regra básica da sociedade: não manter relações sexuais com o próprio pai ou mãe. Mas o Complexo de Édipo vale tanto para os meninos quanto para as meninas, com algumas particularidades, claro.
O que há em comum: depois de nove meses de gestação, seu filho sai da barriga para o mundo. Mas, nos primeiros anos, ainda permanece muito ligado à mãe, seu primeiro objeto de amor. É só mesmo lá para os 3 anos que, simbolicamente, o cordão umbilical é cortado. Para que possa crescer e se tornar autônomo, o pequeno precisa renunciar a essa fusão total. O criador da psicanálise, o austríaco Sigmund Freud (1856 – 1939), retomou o mito grego para definir a tendência compartilhada por todas as crianças: o desejo (inconsciente, que fique claro) pela mãe ou pai (o do sexo oposto) e a eliminação daquele que é do mesmo sexo, considerado rival. Claro que não acontece assim, ao pé da letra. O mito entra aí para escancarar as coisas e permitir que a gente entenda mais facilmente todos esses sentimentos complicados.
”O Complexo de Édipo é uma fantasia desenhada pela criança para integrar uma série de problemas que ela mesma se coloca: o que fez o pai desejar a mãe? Como são feitos os bebês? Qual é a diferença entre homens e mulheres e como faço para me colocar em um destes dois lados? O que é a sexualidade e qual a relação com o amor e com o desejo? Essa fantasia é feita para não ser realizada e seu valor depende exatamente disso”, explica o psicanalista Christian Ingo Dunker, pai de Nathalia e Mathias.
Voltando ao caso da menininha do começo. Ela está manifestando que se identifica com a mãe e quer tomar o seu lugar, chegando a fantasiar que pode ter um filhinho com o pai. Do mesmo modo, o garoto identifica-se com o pai e deseja ser como ele e ter a própria mãe como “namorada”. A criança fica dividida entre a rivalidade e afeição por um, e desejo e rejeição pelo outro. Todos esses novos desejos trazem sofrimento e angústia.
A preferência por um dos pais gera culpa em relação ao outro. Seu filho percebe que seus desejos e pensamentos são perigosos e proibidos. Não é à toa que nessa época algumas crianças começam a ter dificuldade para dormir, ficam irritadas e agressivas. Querer se livrar da mãe e namorar o pai é um segredo difícil de guardar...
Começa um verdadeiro triângulo amoroso. “A relação é complicada porque a criança ama os pais e ainda precisa dar conta da triangulação de sentimentos para não romper com a outra parte”, afirma a psicanalista infantil Sílvia Lobo, mãe de Adriana, Suzana e Maurício. Para Sílvia, esse é um dos grandes conflitos que os filhos precisam digerir.
Tranqüilidade
É bacana saber de tudo isso para encarar respostas como a do começo dessa reportagem sem reações descabidas, tipo ficar chocado ou achar que há algum problema com a filha (ou filho). A resposta deve ser dada de forma tranqüila: “Filha, o papai já tem namorada: é a mamãe”. E pronto. Lógico que o desejo não vai ser concretizado e é isso que precisa ficar claro. Beijar o filho na boca, deixá-lo dormir na cama do casal, tomar banho junto com o pai do sexo oposto sem roupa são atitudes a ser evitadas. Não é caretice, nada disso. Trata-se de demarcar esses limites de maneira bem clara.
Relação de pai e filho é uma coisa, de marido e mulher, outra bastante diferente e, sobre a qual a criança não tem de saber muita coisa. É a hora de fechar a porta e dizer: “Agora a mamãe vai ficar com o papai”. É difícil para você desgrudar do seu filhinho querido? Recorra ao pai. Figura de autoridade por excelência, é ele que pode estabelecer o limite entre o desejo do filho e a relutância da mãe em não ceder à manha, já que ela é seu principal objeto de amor desde o nascimento do menino ou menina.
Essa dificuldade é vivida por Ana Paula Minorelli, que precisa se desdobrar para dar conta dos três homens que tem em casa. Cada noite um dorme na sua cama, assim ela evita brigas e confusão entre os irmãos Luigi, 6 anos e Vitor, 4. “Luigi já está mais apegado ao pai, quer ser como ele quando crescer e não fica mais tão grudado em mim. Já o Vitor, não me larga de jeito nenhum. Abraça, fica agarrado no meu pescoço e beija de sufocar”, conta a mãe. O menor fica bravo quando não dorme com ela e disputa sua atenção com os outros homens da casa, inclusive com o pai.
Citado pela primeira vez em 1910 por Freud, o conceito de Édipo só foi designado como complexo pelo psiquiatra suíço C. J. Jung (1875 – 1961). Freud se baseou na mitologia grega e na peça de Sófocles (496 – 406 a.C), Édipo-Rei, para conceituar a relação sensual que o filho sente pela mãe e, conseqüentemente, a repulsa pelo pai. Mesmo que seu filho ou filha não manifestem tão explicitamente o desejo por você a ponto de dizer que são namorados, pode ter certeza de que todos aqueles sentimentos ambíguos estão lá. As descobertas e sentimentos dos meninos são diferentes dos das meninas, assim como o desenvolvimento de cada fase do complexo.
Falamos com o psicanalista argentino J. – D. Nasio, pai de Flavia, Gaïa, Ivan e Daphné, autor do livro Édipo, o Complexo do Qual Nenhuma Criança Escapa, para entender como funciona esse rolo todo. O menino quer possuir a mãe, se sente poderoso com seu corpo dotado de um falo (palavra que, mais do que pênis, designa poder) e faz de tudo para tirar o pai de cena e ser finalmente o homem da casa. Porém, enquanto fica cheio de orgulho com a mãe ao lado, sente uma angústia forte de um dia perder seu poder de homem. Aos poucos, se afasta da visão sensual da mãe e se aproxima do pai, figura que passa a admirar.
Pai ou mãe solteiros
O complexo se dá mesmo que não haja um pai do sexo oposto em casa. Guilherme Sampaio, 7 anos, é um exemplo. Ele mora com a mãe, a avó e o tio. Guilherme só chama a mãe pelo nome, Isis, e não dorme fora da cama dela. Vive fazendo perguntas sobre as diferenças do corpo do homem e da mulher. Quando toma banho com a mãe, pergunta por que ele tem pipi e ela não, por que ela tem pêlos e ele não... O pai de Guilherme não mora com ele e o tio é visto pelo menino como um irmão. É no avô que ele tem a figura paterna de identificação. É a ele que o garoto respeita, mesmo morando em casas separadas. Segundo o psicanalista Nasio, o importante não é que a mãe tenha um companheiro, mas que deseje alguém. “No caso de não ter parceiro, o que conta é que ela seja interessada por outra coisa senão o filho, que o amor pelo filho não seja o único amor de sua vida. Há Édipo a partir do momento em que a mãe deseja um terceiro entre ela e o pai. O pai é o terceiro que a mãe deseja.”
O menino sai do Édipo em um dia, a menina precisa de anos. Nasio usa a frase para explicar como a relação do Complexo de Édipo feminino é mais complicada que a masculina. Como o menino, as filhas adotam a figura materna como primeiro objeto de investimento sensual. As meninas se vêem como meninos, com os mesmos atributos deles. Essa é a fase, chamada por Freud de pré-edipiana, quando a criança ainda não viu no pai seu foco de desejo. Ao descobrir que ela é exatamente como a mãe, a menina passa por um processo de perda, como se aquele poder que acreditava ter não existisse mais. Essa sensação de frustração faz com que a filha se afaste da mãe e se aproxime do pai, chegando à fase do Édipo em si. “A mulher precisa se sentir protegida pelo outro”, explica Nasio. Por isso, as filhas têm inveja da mãe, que podem dormir com seu homem e tê-lo como companheiro. Querem usar roupas de mulher, passar batom e mostrar-se pela casa como mocinha e não como criança.
A transição de fantasias inconscientes pelo pai até a identificação sexual feminina é lenta. A descoberta de ser mulher aproxima a filha de novo da mãe. Agora não mais como objeto sensual e, sim, como um ser igual a ela. Todo esse processo é fundamental para a descoberta de suas emoções e para construção de um ser humano que saiba lidar com seus desejos e medos. E para o desenvolvimento da consciência moral. É aí que a postura dos pais pode interferir na construção da identidade sexual. A maneira como as reações das crianças é vista pode se estender para a vida adulta de forma favorável ou destrutiva. Édipo mal trabalhado pode levar a adultos incapazes de lidar com seus sentimentos, além de acarretar uma possível relação conflituosa com os pais. O negócio é entender que as crianças têm sua própria sexualidade, aceitar que questionam o amor que sentem por nós e que não podemos atender a todos os seus desejos. Como resume Nasio, ainda se recorre à lenda de Édipo porque não há outra que explique tão bem o sentido das provas vitais que nós, adultos, atravessamos. A primeira é aceitar que, diante de uma escolha difícil, nunca perderemos tudo e, se ganharmos, nunca ganharemos sem perda. Assim como não se pode namorar o papai, não se pode ter tudo na vida.
CONHEÇA O MITO DE ÉDIPO
Édipo é um dos muitos personagens da mitologia grega. Seu pai era Laio, rei de Tebas, que ameaçado por opositores é obrigado a mandar matar seu filho recémnascido. A ordem é dada a um pastor que, tomado pela compaixão, não consegue assassinar a criança. É, então, adotado por camponeses. Em uma das muitas peças pregadas pelos deuses, o menino, agora adulto e forte, reencontra Laio e, durante uma discussão, mata o homem, sem saber que era na verdade seu pai. Tempos depois, a cidade de Tebas se vê ameaçada pela Esfinge. Édipo, com toda sua inteligência, decifra o grande enigma do monstro, que se mata: qual o animal que anda sobre quatro patas de manhã, sobre duas à tarde e três ao anoitecer? A resposta clássica: é o homem, que engatinha quando bebê, anda mais tarde e se apóia numa bengala na velhice. Como agradecimento, o povo da cidade faz de Édipo seu rei, e lhe entrega como presente a mão da rainha Jocasta. Sem saber, Édipo casa com a própria mãe. Como castigo pelos crimes do rei, uma grande peste invade Tebas e o oráculo revela a Édipo sua verdadeira origem. Jocasta se suicida, e o filho, enlouquecido, fura os olhos e foge da cidade.
AS ETAPAS DO COMPLEXO
Ao nascer, o bebê inicia sua fase oral, quando seu prazer está ligado à boca e ao ato de sugar o leite materno.
Com o fim da fase oral, a criança começa sua fase anal, quando aprende a eliminar e reter as fezes e a urina.
A partir dos 2 anos, a criança passa pela fase chamada pré-edipiana, quando começa a perceber as diferenças entre os sexos.
Aos 3 anos (em média), desenvolvem sentimentos de prazer e desejo em relação às figuras maternas e paternas, começando assim a fase edipiana.
A atração pelo pai ou pela mãe e a consciência de que seus desejos nunca são realizados levam o filho a sentimentos de angústia, perda e medo.
A culpa por suas fantasias faz com que os filhos se distanciem de seus objetos de desejo e passem por um processo de dessexualização dos pais.
O fim da fase edipiana chega com a percepção das primeiras noções de pudor, limites e moral.
Os filhos, agora um pouco maiores, em torno dos 6, 7 anos, passam a enxergar seus pais como objeto de identificação (chamado de super eu) e aos poucos criam sua própria identidade sexual, que se estende até a adolescência.
COMO AGIR?
Demarcando os limites, você dá segurança a seu filho
Aceite o afeto, mas imponha limites, não deixando que o beije na boca, por exemplo.
Respeite o corpo do seu filho. Perceba quando ele não quiser abraços e beijos e entenda caso ele fique envergonhado.
Pai e filha e mãe e filho não devem tomar banho juntos sem roupa. Essa é uma das atividades que devem se restringir ao casal. Vista maiô.
A criança deve dormir em sua própria cama. Só quem dorme com a mãe é o pai.
Não ceda à manha. Explique que continua gostando muito dela, mas que naquela hora precisa conversar com a mãe (ou pai).
Haverá momentos em que seu filho vai querer ficar mais com a mãe ou o pai. Evite dizer coisas do tipo: “Eu também não gosto de você”. Com isso, a criança fica com medo de que você não a ame mais.
CONSULTORIA
Bianca Molica Ganuza, psicóloga.
Tel. (12) 3922-2846
Christian Ingo Dunker, psicanalista e professor-doutor do Instituto de Psicologia da USP Tel. (11) 3887-0781
J. – D. Nasio, psiquiatra e psicanalista. www.nasio.fr; nasio@free.fr Sílvia Lobo, psicanalista infantil
Tel. (11) 3064-1694
A Pais e Filhos assistiu ao curso O Nascimento do Sujeito, baseado na série A Mente do Bebê números 1, 2, 3 e 4, especial da Revista Mente e Cérebro, na Casa do Saber, em São Paulo, a convite da Duetto Editorial.
www.mentecerebro.com.br
www.casadosaber.com.br
No mundo dos contos de Fada
Em Pele de Asno, pai quer casar com a filha
Alguns contos infantis fazem referência direta ao Complexo de Édipo, principalmente em sua versão feminina. Uns são mais explícitos, outros menos, porém todos falam do amor do pai pela filha e do desejo entre eles. Bicho-Peludo, dos irmãos Grimm e Pele-de-Asno, de Perrault, escancaram de vez o amor impossível de um pai que pede a filha em casamento. Em ambos os casos, a rainha, que não quer ser substituída, faz o rei prometer que não se casará caso não encontre alguém à altura de sua beleza. E a única tão bela quanto a mãe é a filha. Essa se vê obrigada a fugir e encontrar em outro homem a figura do seu amor. Outras histórias bem conhecidas, como Cinderela, também têm ligação edipiana, porém de forma mais leve. Nesse caso, a madrasta representa o papel da mãe que dificulta a relação do pai com sua filha. Em nenhum deles a fantasia é concretizada. Todas as versões trazem outro elemento interessante: a importância de a mãe deixar de ser a mais bela da casa para que sua filha possa conquistar seu espaço de mulher. Para o desenvolvimento da menina, é importante esse olhar do pai sobre a moça que cresce e que pode se sentir valorizada e conquistar outros homens, se casando e constituindo sua própria família. Espelho, espelho meu: existe alguém mais linda do que eu? Olhe em volta: pode ser que sua filha, ainda bem, esteja tirando o seu trono.
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